Existem poucas pessoas no mundo capazes de fazer o que Mike Shinoda faz: produtor; designer; rapper; multi-instrumentista; pintor e membro fundador da maior banda do século XXI, o Linkin Park. Mike também é fundador de projetos como o Fort Minor, inteiramente focado no hip-hop underground que inicialmente surgiu de uma parceria entre ele e o grupo Styles of Beyond, e por último, o seu projeto solo, que carrega apenas o seu nome e solidifica todas as sua influências em um só som dando vida ao seu primeiro álbum Post Traumatic.

Nascido em 11 de fevereiro de 1977 em Agoura Hills, California, Michael Kenji Shinoda é nipo-americano (metade japonês e metade americano), descendência que veio do seu pai. Logo cedo teve seu primeiro contato na música tocando piano clássico e jazz durante 10 anos.  Ele cresceu no vale de San Fernando aonde todas as crianças do seu bairro ouviam rap e hip-hop o que foi, para ele, a sua primeira introdução ao gênero criando sua identidade musical. Lá ele convivia com pessoas de várias etnias, culturas e lugares. Um pouco depois ele teve que se mudar para o subúrbio de Los Angeles, aonde quase nenhuma das crianças da sua idade (que agora na sua grande maioria eram brancas) sequer ouviam ter falado sobre hip-hop, o que foi difícil pra Mike no inicio.

Mike sempre gostou muito de pintar. Quando pequeno era uma criança muito ativa, e seus pais sempre lhe davam papel e lápis quando o levavam a restaurantes e lugares públicos para que ele ficasse quieto. Isso logo se mostrou um talento e seus pais apoiaram bem cedo os seus passos para seguir a carreira de pintor/designer.

Aos 15 anos, um amigo do seu pai o levou ao show do Antrax e Public Enemy.  Sendo o seu primeiro grande show, Mike ficou completamente fascinado pela mistura entre rap e rock que ele havia visto e, dali em diante, ele decidiu que queria fazer uma banda nesse estilo.  Fundindo vários gêneros musicais, ele já produzia samples e beats para amigos na sua controladora midi há um tempo e logo começou a fazer algumas linhas de rap em cima desses samples com rimas que na sua grande maioria tinham um teor gangsta, porém zoeiro e cheio de piadas. Mike sempre amou rap, mas ele não conseguia se identificar com as letras, que na época em sua grande maioria eram sobre gangues, crime, e sempre retratando a violência local. Entretanto, para ele, em sua grande maioria essas músicas nem sempre diziam a verdade. O famoso rap ostentação já existia naquela época e sempre foi algo presente em músicas desse estilo nos EUA. Mike acreditava que tudo aquilo dito era mentira.  Mais tarde ele escreveu uma música chamada Cigarettes que reflete justamente esse pensamento, em um show em 2015 ele disse:

Eu cresci escutando hip-hop, mas sempre achei que o que os MC’s cantavam não era verdade, era mais ou menos tipo: cara eu amo o que você está dizendo, mas eu sei que é tudo mentira, faz tudo parte do show“.

E para ele, se um dia ele fosse fazer o seu próprio som, ele iria retratar coisas reais e que ele viveu, diferente da grande maioria dos rappers, pois ele sabia que aquele não era o seu mundo ou sua realidade.

Enquanto estava no ensino médio, Mike e Mark Wakefield, que era seu amigo desde os 12 anos de idade começaram a produzir demos.  Eles eram conhecidos na escola como “os caras que faziam músicas engraçadas”. Mark tinha uma forte influência de rock e apresentou para Mike bandas como Nine Inch Nails, Rage Against The Machine, Nirvana e Pearl Jam, e por outro lado, Mike com toda sua bagagem em Hip-Hop, introduziu para o amigo grupos como Run DMC, N.W.A, Public Enemy, Wu-Tang Clan e rappers como Biggie Smalls e Tupac. Alguns anos depois, Mike conheceu Brad Delson que era vizinho de Mark. Ambos já haviam feito parte de uma banda juntos chamada “The Pricks” e mais tarde formaram outra banda chamada “Relative Degree” na qual Rob Bourdon era baterista.  Apesar de na época Mike nunca ter feito parte de nenhuma das bandas, ele constantemente ia a ensaios e produzia beats para eles. Nessa época Mike construiu uma forte amizade com Brad. 

Foto por Mairo Cinquetti/REX/Shutterstock (8871641ao) Linkin Park – Mike Shinoda I-Days Festival, Dia 2, Monza, Itália – 17 Jun 2017

Após se formarem no colegial entre 1995 e 1996, Mike e Mark resolveram criar uma nova banda chamada “XERO”.  Naquela época Mike já vinha fazendo beats para grupos de Hip-Hop da região e também pra si próprio há um tempo, mas ele estava disposto e criar algo novo que tivesse a mistura de vários gêneros, como a que ele havia visto naquele show do Antrax com o Publick Enemy anos antes, e após algumas sessões de gravação, eles convidaram Brad para gravar algumas guitarras e fizeram 4 demos juntos, tendo algumas das guitarras tocadas pelo próprio Mike. Eles enviaram o material para Paul, um representante do departamento de A&R (artista e repertório) de uma gravadora/editora indie da região. O representante da gravadora ligou e convidou eles para conversar.  Ele ficou impressionado em saber que eles haviam gravado uma fita cassete demo profissional em um gravador de 4 canais no quarto de Mike Shinoda. Aquilo era um feito e tanto para alguns garotos que nunca nem sequer tinham entrado em um estúdio e esses foram os primeiros sinais da genialidade de Mike como produtor. Paul os encorajou a formarem uma banda completa e começarem a fazer shows. Foi então que Mike convidou Rob Bourdon para o projeto. Rob ficou interessado ao ouvir a fita cassete com 4 músicas que eles já tinham feito. Após o termino da Relative Degree, Rob havia passado por um período turbulento em sua vida com drogas e alcoolismo, mas perto de se formar no ensino médio ele já tinha superado aquilo tudo e estava tocando bateria em tempo integral de novo. Brad chamou seu colega de quarto da faculdade que frequentava (UCLA), Dave Farrell, para tocar baixo na banda.  Dave, quando mais novo, tinha vontade de tocar violoncelo assim como seu irmão mais velho, porém por ele ainda ser muito pequeno (na época ainda criança) e o instrumento muito grande, ele acabou tocando violino e um pouco de viola por oito anos até que no ensino médio sua mãe o introduziu a guitarra e depois ele começou a aprender baixo. Mas ainda faltava um elemento. Todos queriam a participação de um DJ no projeto para executar os efeitos das músicas ao vivo, mas era necessário que fosse alguém que fizesse mais que somente scratchs. Mike, que agora já estava na Art Center College of Design (faculdade de arte e design), conheceu Joe Hahn, que como ele, tinha influências de Hip-Hop e adorava Rap. Joe acabou saindo da faculdade após um ano por conta do alto custo do curso, e então ele começou a trabalhar como ilustrador e designer de efeitos especiais, e, alguns anos depois, Mike o convidou para fazer parte da banda como DJ. Joe havia tocado violino e um pouco de guitarra quando mais novo, e no ensino médio, resolveu se dedicar totalmente a ser DJ. Logo após ter se juntado a banda, ele começou a retrabalhar algumas das músicas que eles tinham, adicionando novos elementos e sons a princípio usando apenas um toca discos e uma drum machine (MPC) para criação de beats, mas logo eles perceberam que precisariam de um computador para criação de sons mais elaborados e profundos.

Com uma formação completa, a banda fez seu primeiro show em 14 de novembro de 1997 no Whisky A Go Go que ficava na Sunset Strip Boulevard (uma avenida repleta de bares e casas de shows em Hollywood). Eles abriram o show para o System of a Down, junto a uma banda chamada SX-10. Mike conta que vestiu uma roupa ridícula nesse show: ele estava com um boné branco, óculos azuis e luvas brancas e, para ele, essa era a forma de entrar em um personagem e fugir um pouco do estereótipo de cara normal que ele sabia que era e também lidar com a insegurança de tocar ao vivo. Na plateia estava Jeff Blue, que era chefe e professor de Brad na UCLA. 

Jeff tinha acabado de ajudar o Korn e o Limp Bizkit a conseguirem um contrato com uma gravadora. Naquela época, ele estava ajudando uma jovem cantora chamada Macy Gray a conseguir shows e contratos, e estava precisando de um ajudante para trabalhar com ele a procura de novas bandas e talentos. Assim, Brad se candidatou pra vaga e foi até o escritório de Jeff mesmo sem ter uma hora marcada para conversar com ele. No escritório havia uma enorme placa do Limp Bizkit e Brad disse a Jeff “essa banda não é tão boa, eu vou ter uma banda maior e melhor do que essa pode ter certeza“. Jeff o contratou e gostou da sua ousadia e forma de pensar e, depois daquele show no Whisky, ele viu potencial na banda e conseguiu um pequeno financiamento e apoio para a XERO através do pequeno grupo Zomba Music. Assim, eles conseguiram comprar melhores instrumentos, gravar músicas com mais qualidade e melhorarem o seu show.

Mike conta que a banda passava mais tempo trabalhando em suas músicas do que tocando:

diferente da maioria dos grupos, nós não costumávamos tocar muito, passávamos 2 ou 3 semanas no estúdio compondo e trabalhando nas músicas, e então, tocávamos 2 vezes por mês no máximo.  Na grande maioria das vezes, só fazíamos como desculpa para reunir os amigos e dar um festa depois“.

E, em uma dessas festas em 1998, Mike conheceu por intermédio de Mark Wakefield, Anna Hillinger de Long Beach, CA. Mike deu uma fita cassete do XERO para Anna na época, então eles começaram a namorar e anos depois, em 2003, se casaram.

Eles fizeram mais alguns shows em Los Angeles, mas sem muito sucesso.  Com repertório de 6 a 8 músicas e 25 a 30 min de tempo de show, a banda só conseguia apoio de amigos e conhecidos, que iam aos shows apenas como forma de apoiar os amigos. Era normal que bandas como Hoobastank e Incubus fossem ao shows do XERO e vice versa. Andy Gould, que anos depois iria trabalhar para Warner, lembra-se de ter visto o XERO tocar apenas para 10 pessoas no The Roxy Theatre. A banda trocou de nome, dessa vez adicionando o número 818 (que era o código de área do San Fernando Valley, lugar aonde eles viviam) ficando então “XERO 818”.

Após um tempo, com a falta de oportunidade e dificuldade em conseguir uma gravadora, a banda começou a se desfazer. No final de 1998, Mark Wakefield deixou o projeto e começou a trabalhar para o empresário do System of a Down, “David “Beno” Benveniste que fazia parte do Velvet Hammer Music and Management Group e também era fundador da Streetwise, uma empresa de Marketing que anos depois viria ajudar o Linkin Park a formar o seu Street Team. Dave também sairia do projeto em breve.  Ele era baixista em uma outra banda, a Tasty Snax, na qual os membros eram amigos dele desde o colegial. Eles iriam lançar o seu primeiro álbum “Run Joseph Run” naquele ano e entrar em turnê em seguida e Dave foi com eles. Lançariam mais um álbum em 2000 chamado “Snax” e, em 2001, a banda acabaria. Mark Fiore que era vocalista da banda, anos mais tarde viria a ser tornar cinegrafista oficial do Linkin Park.

Sem vocalista e agora também sem um baixista, o grupo enfrentava uma maré de azar. Sem muita perspectiva de um futuro a banda ficou parada por um tempo, até que começaram a procurar por um novo vocalista:

Eu queria alguém para a banda, que tivesse o mesmo entusiasmo e paixão por vocais melódicos, assim como eu tenho com o rap” disse Mike Shinoda.

Danny Hayes, o agente que ajudou o XERO a conseguir um contrato de publicação anos antes, tinha uma parceria com Scott Harrington, que era agente de entretenimento da banda “Grey Daze” em LA. A banda havia feito um show para uma gravadora por lá na tentativa de conseguir um contrato, mas acabou não dando certo e a acabaram se separando. Esse show foi um dos motivos que fizeram Chester Bennington ser chamado para uma audição com o XERO algum tempo depois. Scott e Danny estavam numa conferência musical no festival SXSW (South by Southwest) no Texas, e Danny comentou que uma das bandas que ele agenciava (XERO) estava precisando de um vocalista. Foi então que Scott indicou Chester. Jeff Blue, que também estava na conferência e havia agenciado o XERO anos antes, além de ter sido chefe de Brad Delson, ficou sabendo sobre o vocalista de Phoenix Arizona. Ele estava tão desesperado que ligou para o Chester enquanto ainda estava no Texas, avisando que mandaria pra ele o material da banda com músicas gravadas e instrumentais para ele poder cantar por cima. Então, Scott entrou em contato com Kerry Rose, que era o empresário do Grey Daze na época, para saber se havia a possibilidade de falar com Chester sobre outro projeto chamado XERO, já que o antigo vocalista da banda tinha saído por ter “stage fright” (um pavor de palco, e ansiedade ao se apresentar em público) e, portanto, eles estavam a procura de um novo vocalista.

Scott ligou para Chester, que na época não queria mais saber de música, pois havia passado por uma audição terrível em 1998 com a banda “Kongo Shock”. Mesmo assim, ele tentou convencer Chester de que a banda tinha potencial e poderia chegar a algum lugar. Ao saber que a banda, em sua grande maioria, ainda eram adolescentes, Chester não deu muita importância e achou que era um perda de tempo, mas Scott insistiu que ele pelo menos ouvisse as músicas. Então, no dia seguinte, em uma sexta-feira, Chester recebeu as fitas contendo de um lado os vocais e do outro lado os instrumentais. Ele ouviu primeiro os instrumentais e ficou impressionado. Não parecia com nada que ele já tinha ouvido antes. Mas ao escutar o outro lado com os vocais, ele começou a se questionar se aquilo era realmente bom. Então, ele mudou de novo para o lado dos instrumentais e começou a cantar em cima das faixas, e pensou, “eu posso fazer isso“, dentro de algumas das faixas, estavam inclusas as demos de A Place For My Head (Esaul) e Forgotten (Rhinestone);

Eu percebi que o Rap de Mike era muito bom, e eu senti que poderia melhorar a melodia das músicas e os refrões. Algo me dizia que era especial. Esse era o bilhete dourado que me levaria para dentro da fábrica de chocolate do Willy Wonka” disse Chester, em referência ao potencial da banda pra alcançar o sucesso que ele tanto queria.

Chester entrou em contato com Jay Kereny , do grupo Lemon Krayola, e pediu se ele poderia o ajudar com as músicas. Então Jay, seu irmão John e Bart Applewhite da banda Kong Shock, aprenderam as músicas para tocarem e ajudaram Chester com a melodia.  Os três músicos tocavam em uma banda chamada Size 5. Na época, o frontman da banda Chuck Moore, disse: “Uma lembrança incrível que eu tenho é de uma noite que ele (Chester) e Sam vieram até a base da nossa banda e ele me perguntou se eu poderia emprestar a banda por algumas horas para ajudarem ele em umas músicas para uma audição de uma banda de Los Angeles chamada Hybrid Theory” e eu disse “com certeza”. “Então Jay, John e Barton ajudaram ele na parte do vídeo, Sam o ajudou com os vocais e assim a história nasceu”.

No dia seguinte, Chester iria fazer uma grande festa para seu aniversário de 23 anos, mas ele cancelou a festa e resolveu trabalhar nos vocais para as música do XERO. Ele ligou para Mike Jones, que tinha trabalhado na parte técnica e de produção do álbum “…No Sun Today” do Grey Daze, e pediu para usar o estúdio dele, porém ele estava com pouco dinheiro para pagar as horas do estúdio. Mike Jones cobrou 100$ dólares a hora, e pediu para que seu parceiro Ghery Fimbres se encontrasse com Chester mais tarde naquela noite de sábado em seu estúdio. Ghery transferiu a gravação via cassete para uma fita de 24 faixas com 2 centímetros de espessura, limpando o máximo do ruído da gravação, que naquela época, ainda era analógica. Chester usou um microfone condensador Neumann U-87 com Pop filter e headphone de estúdio. A gravação demorou 3 horas, e o produto final foi salvo em .DAT (tipo de arquivo que guarda informações em perdas, similar ao FLAC e WAV de hoje em dia), assim como uma cópia em CD-R. No domingo, Chester foi pra casa e ligou para Jeff Blue para o informar que já havia terminado a gravação das músicas e perguntou quando ele poderia ir a LA. Jeff não acreditou que ele já tinha terminado a gravação em tão pouco tempo, e disse para Chester que teria que ouvir primeiro as músicas antes de ele poder ir até LA.  Chester recusou, pois queria ter certeza que a banda iria ouvir a gravação. Então, ele pegou um toca fitas stereo e tocou 30 segundos da gravação por telefone para Jeff, que ficou impressionado. Chester não só tinha apenas cantado as partes do Mark Wakefield, como também adicional seu próprio estilo a elas.

Na segunda-feira, Chester abandonou seu trabalho (no qual ele escaneava mapas para uma empresa) e foi embora para Los Angeles. Porém, ele antes assegurou com seus chefes, de que caso não desse certo a audição com a banda, ele poderia voltar e ter seu trabalho garantido. Por meses ele morou em casas de parentes dormindo no sofá, em estúdio e até mesmo num velho carro Toyota que tinha. Ele encontrou com Jeff Blue na sede do Nine Thousand Sunset LLC and Cord Partners Inc. que ficava na Sunset Blvd. Naquele mesmo dia, Jeff começou a ligar para representantes de gravadoras, anunciando que o XERO já tinha um novo vocalista e fechando shows de divulgação. Jeff, que anos antes em 1997, tinha feito um acordo de agenciamento com a banda depois de ouvir eles pela primeira vez no Whisky A Go Go. Na época, a grande maioria dos representantes de gravadoras e agentes foram embora na terceira música do show.

Em Los Angeles havia uma revista chamada Music Connection. O XERO tinha usado a revista para anunciar a vaga de vocalista para o projeto, e quando Chester conheceu a banda pessoalmente, ele entregou a eles em mãos a sua gravação e eles adoraram o que ouviram Entretanto, por conta do anúncio feito um pouco antes, eles já haviam marcado com outras pessoas uma audição para entrar na banda. Durante 3 dias eles tiveram que parar os ensaios para fazer audições com outras pessoas, mesmo com Chester já compondo junto a eles novas músicas durante o processo.

Havia um cara nas audições que nunca usava tênis e ele queria fazer comédia stand-up durante os nossos shows” disse Mike. Em algum ponto durante esse período, um cara apareceu e ouviu o Chester cantar e disse “se vocês não contratarem esse cara, vocês são idiotas pra car***” e foi embora. Chester insistiu para que ele fizesse sua audição, e ele disse “não tem jeito de eu voltar pra lá e tentar algo, não tem a mínima chance de eu cantar depois de ouvir você cantar daquele jeito. Se eles não te contratarem me ligue, vamos começar uma banda juntos“. Uma das pessoas que fez audição para banda foi Boris Bouma, da banda de holandesa de metal progressivo “Frozen Sun”, que mais tarde seria conhecido como o frontman da banda americana “Epidemic”. 

Antes de conhecer o Chester, a banda já vinha fazendo audições para um novo vocalista há cerca de 4 a 5 meses, o que significa que eles começaram o processo quando Mark Wakefield ainda estava na banda.

Um novo nome para banda “Hybrid Theory” foi sugerido por Chester após levar em conta a mistura de estilo que constituía o som deles, mas eles sentiam que isso poderia ser mais bem trabalhado ao invés de somente misturar todos os gêneros de maneira abrupta e forçada. Então eles descartaram a maioria das músicas que eles tinham e começaram a escrever novas canções.  Brad Delson explicou “eu não quero que nossa música soe tipo: aqui está a parte do rap e aqui está a grandiosa parte do refrão de rock. Eu quero que tudo se encaixe direito, assim não teremos uma parte que parece rap e outra que parece somente rock. No início foi bem difícil. Se você ouvir nossas demos antigas, vai ver que essa divisão fica bem clara. Tínhamos que ter uma parte de rap e uma parte de rock em todas as músicas” e Mike completou “nós constantemente evoluímos nossos experimentos, nosso objetivo é trazer similaridade para elementos que são diferentes uns dos outros“. No início, Mike e Brad faziam a base das músicas antes de escrever as letras com Chester. Como Mike apontou ambos cresceram e foram criados de formas diferentes:

meu pais ainda eram casados e cuidavam bem de mim e meu irmão e eu sentia que havia tido uma boa criação, enquanto Chester cresceu em um sistema familiar bastante disfuncional. Isso foi uma das coisas que fez nossa amizade não só se tornar forte, mas ajudou no nosso processo de criação das músicas. Éramos como creme de amendoim e geleia, éramos tão diferentes um do outro, mas eu tinha uma facilidade, de, como ele dizia, escrever coisas que já estavam em sua mente e vice e versa” disse Mike.

Com a audição de um novo membro como vocalista, Jeff Blue começou a ligar para representantes de gravadoras para que eles pudessem vir e assistir os ensaios da banda, e um por um, eles negaram novamente a banda.  Brad comentou “nós provavelmente fomos oferecidos para todas as grandes gravadoras menos a Warner Bros. Nenhuma nos deu a chance. Eles achavam que o que estávamos fazendo era muito diferente. Muitas bandas na época estavam fazendo rap e rock, mas os representantes A&R das gravadoras achavam que só havia uma maneira de se fazer esse tipo de música. Por exemplo, eles pensavam que a nossa música não era muito do tipo pra se ouvir numa festa. Nós estávamos usando diferentes elementos do hip-hop que vinham de bandas e grupos como Black-Eyed Peas, The Roots, Common e Mos Def, algo um pouco mais obscuro e um pouco mais intelectual“.

O envolvimento de Dave Farrell com sua banda, The Snax, o impediu de compor e gravar com a banda por um tempo. Depois que Chester entrou para o projeto, Dave saiu em turnê com sua banda no que ele chamou de “um LONGO ano” (quase que um ano e meio). Ele foi substituído por Kyle Christener da banda Waffle, que fez alguns shows com a banda na Califórnia e Arizona, assim como as apresentações para as gravadoras antes de ser tirado da banda.

Acho que passamos quase um ano enchendo o saco dele para voltar para a banda. Estando em turnê sem ele, o equilíbrio de personalidades da banda era um problema constante. Sabíamos que a química entre nós não estava funcionando“, disse Mike sobre a ausência de Dave.

Com Kyle, a banda criou seu próprio selo musical, “Mix Media”, gravaram 5 músicas e fizeram 1500 cópias do seu primeiro EP “Hybrid Theroy”. Venderam algumas centenas e depois distribuíram o resto. Como uma maneira de expandir o alcance de suas músicas, a banda distribuiu de graça a maioria das suas músicas no site MP3.com. Eles postavam o link de sua página e site por toda internet: em fóruns de música; chats e sites de outras bandas. Pouco tempo depois Rob disse “eu intimava todos da banda para irem à internet e recrutarem 6 pessoas por dia cada. Nós íamos no chat do site do Korn e dizíamos; hey tem uma nova banda chamada Linkin Park vocês deveriam ouvir a música deles, fingindo que não estávamos na banda“. O Street Team do Linkin Park surgiu dessa divulgação (foi uma espécie de versão beta do LPU. Era constituído por fãs que ajudavam na divulgação de suas músicas e álbuns e foi bastante forte principalmente no início de tudo e na transição de Hybrid Theory para Linkin Park). Através disso, as pessoas entravam em contato com a banda e podiam receber cópias do EP e materiais promocionais como camisas e acessórios. Eles passavam quase 10 horas por dia no apartamento de Rob empacotando e enviando os itens para os fãs: “o serviço de correios da minha rua já estava de saco cheio da gente, pois caixas de correio prioritárias eram gratuitas. Então levávamos todas as caixas com itens para os fãs até lá para serem enviadas. Meu apartamento virou depósito para todo o merchant da banda. Todo feedback positivo dos fãs foi o gás que nos deu coragem para gravarmos nosso primeiro álbum e entrarmos em turnê“, disse Rob.

Mike Shinoda, durante show em City Sound festival no hipódromo San Siro. Milão (Itália), 10 de Junho, 2014 (Foto por Francesco Prandoni\Archivio Francesco Prandoni\Mondadori Portfolio via Getty Images)

Por quase três anos a banda tentou um contrato com gravadoras dos EUA através dos contatos que eles tinham na Zomba Music mandando demos para produtores e pessoas do ramo que ainda não haviam ouvido o som deles. Com o crescimento de bandas de rap/rock como Limp Bizkit, Kid Rock e Korn na época, só piorou tudo para eles, tornando ainda mais difícil uma possível contratação. Até que, em novembro de 1999, a banda conseguiu um contrato de “desenvolvimento de artistas” com a Warner Bros, e graças à contratação de Jeff Blue como chefe de departamento desse setor, eles finalmente teriam a oportunidade que tanto queriam. Então, em Abril de 2000, Jeff fez o seu primeiro contrato oficial com a banda Hybrid Theory dentro da gravadora.  A Warner já tinha negado 3 vezes a banda antes disso.

A primeira coisa que a banda fez após conseguir o contrato foi marcar uma reunião no prédio da Warner com todo o pessoal da gravadora para que eles pudessem se apresentar e conseguissem falar sobre os objetivos que eles tinham na música, como eles gostariam que os fãs fossem tratados e como tudo deveria ser feito em relação à música que eles estavam fazendo. Apesar de a gravadora ver essa atitude da banda como algo positivo e seguirem junto com eles na proposta, esse seria só o inicio de uma série de problemas que a eles teriam.

O primeiro grande problema veio com o nome. Na época, já existia uma banda chamada “Hybrid”, que segundo a gravadora, seria a “nova grande promessa” deles, e eles não queriam que as pessoas confundissem os grupos e acabassem comprando o disco da “Hybrid Theory” sem querer (dando a entender que o público iria se decepcionar por eles talvez não serem bons). Então a banda teve que trocar de nome. Mais uma vez, uma série de nomes surgiram de uma lista de 30. Alguns dos quais eles pensaram foram “Clear” (mas a gravadora não gostou), Probing Lagers e Platinum Lotus Foundation. Então, Chester deu a ideia de a banda se chamar “Lincoln Park” que surgiu de um parque homônimo onde ele passava de carro às vezes, e dentro os 30 nomes que eles tinham pensado, esse foi o único que todos os membros gostaram. Brad sugeriu que eles comprassem logo um domínio online para a banda com esse nome (LincolnPark.com), no entanto já existia um domínio registrado com o mesmo e custaria 10.000$ (dez mil) dólares para eles terem de usar.  Então, eles acabaram mudando o “Lincoln” para “Linkin” e em 24 de Maio de 2000 o LinkinPark.com nasceu, e anos mais tarde, o parque Lincoln mudou de nome para Parque Christine Emerson Reed. A banda também registrou domínio para todos os 30 outros nomes antes sugeridos para em caso de haver outro problema com o nome Linkin Park no futuro. 

 Outro conflito que a banda teria com a gravadora foi citado por Mike anos depois na música “Get Me Gone” do Fort Minor. Eles queriam que a banda fosse apenas rock e que Mike não fizesse rap, apenas tocasse piano, ou pior, até fosse tirado da banda. A primeira vez que eles ouviram sobre isso foi através de Don Gilmore (produtor do Hybrid Theory e Meteora) que os informou que a gravadora pensava que Chester era a estrela e que eles não precisavam de Mike, e, obviamente, todos ficaram contra a gravadora. Um pouco depois eles sugeriram que um cantor de raggae, Matt Lyons, entrasse na banda no lugar de Mike. Eles também queriam que Mike fizesse rap com o mesmo flow de Fred Durst do Limp Bizkit. Após isso, a banda cortou todo contato com a gravadora durante o processo de gravação do Hybrid Theory, apenas se comunicando em caso de extrema necessidade.

Em um período durante a gravação do álbum (Hybrid Theory) os representantes da gravadora vinham ouvir o material e eles diziam: “eu não sei, isso não está me soando legal”; “tem algo estranho aqui”; “não estamos gostando”. Então o nosso produtor dizia: “esperem um pouco”; “deixem eu mexer em uma coisinha aqui” e ele girava um knob e dava play novamente e os representantes diziam: “nossa agora está ótimo”; “não sei o que você fez mas está muito bom” e a única coisa que tínhamos feito foi aumentar o volume da música” disse Chester.

Eles também tiveram problema com a forma com que se vestiam. Eles achavam que todos pareciam “asiáticos demais” e que eles deveriam se vestir diferente. Então chamaram um consultor de estilo para ajudar eles, e ele sugeriu que Joe usasse um jaleco de laboratório e fosse uma espécie de personagem, “The Doctor”, na tentativa de fazer eles pareceram cartunescos. Em uma entrevista, Chester disse que o então presidente da Warner na época, Phil Quartararo, não gostava da banda e não queria lançar o álbum deles.

A constante falta de um baixista fixo na banda também era um grande problema. Ian Hornbeck, um músico de Seattle, foi convidado para entrar para banda como baixista, mas não pode por conta de seus problemas com drogas. Entretanto suas linhas de baixo foram usadas em 3 músicas do Hybrid Theory (A Place For My Head, Papercut e Forgotten). Vários músicos fizeram audição para entrar na banda como baixistas, Mace Beyers do Grey Daze, Jay Kereny do Lemon Krayola, mas o único a conseguir um cargo provisório/fixo foi Scott Koziol. Ele havia se mudado pra Los Angeles há pouco tempo e foi indicado por Barry Squire, que era dono de uma empresa que prestava serviços de referência para músicos da região. Foi Rob Bourdon que fez o primeiro contato com Scott por telefone. Eles conversaram e Rob enviou um CD para ele contendo algumas faixas para ele aprender a tocar. Eles ensaiavam 6 dias por semana por 8 horas seguidas para poderem fazer shows e gravarem o Hybrid Theory. Scott tocou com a banda até o final dos anos 2000, participou do clipe de One Step Closer e fez vários shows com a banda na época até o retorno de Phoenix em 2001. Ele foi creditado como baixista da banda em algumas versões que saíram do Hybrid Theory e também como baixista na música One Step Closer. Mike Elizondo foi outro baixista convidado para entrar na banda, mas na época decidiu trabalhar para Dr. Dre e Eminem.

O Linkin Park trabalhou de 1999 até 2000 na produção e criação do Hybrid Theory. O álbum levava o mesmo nome que eles usavam como banda, pois ainda mantinha o conceito da mistura de gêneros que era o principal fundamento da banda. A direção de arte ficou por conta de Frank Maddocks com algumas linhas e desenhos feitas por Mike e Joe. O Hybrid Theory foi segundo álbum que Frank fez para Warner, sendo que seu primeiro trabalho com a gravadora foi para banda Deftones no álbum Withe Pony. Os membros do Linkin Park notaram o trabalho de Frank e gostaram muito, decidindo convidá-lo para trabalhar com eles.

O “Hybrid Soldier” foi criação de Mike Shinoda.  Segundo Chester:

a ideia de misturar elementos pesados com elementos mais calmos dentro da música era algo que transparecia perfeitamente ao olhar para um soldado com asas de libélula nas costas, ambos representando essa mistura de elementos que eles tinham“.

As fotos promocionais para o álbum foram tiradas em 29 de julho de 2000 em Pittsburgh, Pensilvânia, antes de um show que a banda faria abrindo para o grupo, The Union Underground. A banda usou algumas das roupas de Frank Maddocks durante as sessões do pré- show.

Muitas das músicas criadas pela banda antes da gravação do álbum foram reinterpretadas e reinventadas por Don Gilmore, que a princípio não gostou de nenhuma das músicas que a banda tinha. Segundo Don, apenas With You e Points of Authority eram boas, e eles praticamente tiveram que fazer um álbum completamente do zero juntos. A banda teve problemas para arranjar um produtor, já que nenhum dos que eles haviam conversado pareciam entender o objetivo da banda até eles conhecerem Don, que sempre os incentivou a escrever e compor da melhor forma que eles podiam. O álbum foi gravado no NRG Studios em Los Angeles, CA.  Enquanto estavam promovendo o álbum, a banda citou várias vezes suas influências musicais para fazer o disco: Black Star; The Roots; Mos Def; Roni Size; Aphex Twin; Depeche Mode; Deftones; Sunny Day Real Estate; Nine Inch Nails; Dido; Black Eyed Peas; Jurassic 5; Pharoahe Monch; Portishead, entre outros. Mike disse:

quando estamos gravando algo, nós não fazemos jam (técnica usada por muitas bandas que consiste em sentar e tocar os instrumentos e criar melodias e letras sem uma ordem estabelecida), temos um maneira diferente de compor nossas músicas. Cada um de nós faz sua própria parte, e depois nós nos reunimos e sentamos pra ver o que podemos melhorar e acrescentar para cada uma dessas partes, e dai então fazemos as mudanças e repetimos o processo“.

O Hybrid Theory foi lançado nos EUA no dia 24 de Outubro de 2000 e no resto do mundo o álbum saiu em várias datas ao longo de 2001. Foi um sucesso instantâneo de público e vendas tornando-se o álbum de estreia mais vendido do século XXI. Até hoje foram vendidas mais de 30 milhões de cópias do disco em todo o mundo. Com singles como In The End, Crawling, One Step Closer e Papercut, a banda se consagrou e deixou sua marca na história da música contemporânea.

Dos primórdios de um projeto que surgiu como uma brincadeira entre amigos até se tornar a maior banda da atualidade, o Linkin Park teve como maestro uma pessoa por trás de todos os grandes singles e hits que a banda emplacou. Michael Kenji Shinoda se mostrou um prodígio desde o início ao produzir uma demo profissional em sua garagem com o pior equipamento disponível. Sua constante perseverança e talento fizeram com que o sonho dele e de seus companheiros de banda se tornasse realidade. A junção da banda com o incomparável e insubstituível Chester Bennington foi o ponto de virada na carreira da banda como um todo. Chester era a peça que faltava para completar o quebra cabeça do talento que eles já tinham. Não restam dúvidas de que as coisas poderiam ter sido bem diferentes se isso não tivesse acontecido. Mas seja como conjunto ou de forma individual, o Linkin Park é uma banda cheia de elementos únicos, tanto no lado técnico quando no lado humano. A união desses 6 homens é o principal elemento responsável pela criação de discos e músicas tão incríveis, cada um com sua respectiva importância e mérito sobre tudo que eles construíram até hoje.

Texto escrito por: Hiago Cerqueira

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