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– Por Hiago Cerqueira (@kennjii_

Há 20 anos, em outubro de 2000, o Linkin Park apresentava ao mundo seu primeiro álbum. Intitulado “Hybrid Theory“, o disco de 12 faixas foi um sucesso estrondoso tornando-se o álbum de estreia mais bem sucedido de todos os tempos e também um dos mais vendidos do século XXI. Por mais que pareça um conquista óbvia, tendo em vista a qualidade e diversidade das músicas presentes nesse CD, o Linkin Park batalhou muito pra sequer ter uma chance de mostrar o seu valor como banda e conseguir um lugar no mundo da música. 

A banda já havia sido negada por inúmeras gravadoras antes de conseguir um contrato. Nos primórdios a banda sofreu com problemas na sua formação e até mesmo com o nome do grupo, pois o primeiro que fora escolhido pela banda havia sido justamente “Hybrid Theory“, e a gravadora não queria que os mesmos fossem confundidos com uma banda já existente na época chamada “Hybrid“. Então, naquele momento, pediram para que eles mudassem o nome e a identidade deles. Chester que na época tinha recém se juntando a banda, foi o principal responsável pela criação do nome Linkin Park. Ele costumava passar por um parque chamando “Lincoln Park” todos os dias a caminho do estúdio e sugeriu como um dos vários possíveis nomes para a banda. Eles também tinham em mente outras possibilidades como Clear, Probing Lagers, e Platinum Lotus Foundation. Linkin Park acabou sendo o nome final por conta de um problema com o domínio do site que eles estavam construindo que consistia em quanto maior o número de letras mais caro ficava para consegui-lo, então eles alteram o “Lincoln” para “Linkin” ficando assim “linkinpark.com“. Segundo a banda, a falta de significado para o nome “Linkin Park” dava a eles uma certa liberdade, além de representar o som que eles queriam criar. Da mesma forma que Hybrid Theory era para eles a mistura de ritmos e gêneros em um único som, o nome Linkin Park era algo que não os limitava e os representava da mesma forma. A banda sempre brincou com o quão ruim eles eram em dar nome para as coisas e encontrar um nome bom para banda, segundo o Chester, era pior do que compor uma música. “Nós estávamos felizes com Hybrid Theory, a gente se identificava, e de repente viraram pra gente e disseram: “Não, vocês não podem mais ser Hybrid Theory“” disse ele durante uma entrevista. 

Anos antes da formação do Linkin Park e de Chester Bennington se juntar a eles, Mike Shinoda, Brad Delson e Mark Wakefield formaram o “XERO“, uma banda de garagem que surgiu quando eles ainda estavam no colegial. Mark e Mike costumavam fazer músicas de zoeira, misturando samples de outras canções e estilos diferentes, como Michael Jackson e Nine Inch Nails, apenas divulgando elas entre os amigos da escola. Foi graças ao apoio desses amigos que gostavam dessas músicas que eles começaram a levar um pouco mais a sério a ideia de ter uma banda.

Mike comprou um gravador de 4 faixas em camadas e um microfone de segunda mão com os quais eles gravaram as suas primeiras demos. Pelas dificuldades técnicas do sistema de gravação, as primeiras linhas de bateria das músicas não existiam. Mike criava elas através de loops por software com beats que era passado do computador para o gravador e depois para uma fita cassete. Um pouco mais tarde, Joe Hahn, Rob Bourdon e Dave “Phoenix” Farrell se reuniram formando a banda. Joe era colega de classe de Mike na faculdade de Arte & Design e entrou como DJ do grupo, Dave era colega de quarto de Brad na faculdade UCLA e Rob fez parte de uma banda com Brad enquanto estavam no colégio, chamada “Relative Degree” na qual Mike costumava ir ao shows com frequência, já que ele conhecia Brad desde os 8 anos de idade.

Como XERO, a banda conseguiu um reconhecimento considerável e um pequeno acordo com a agência musical “Zomba Music” que investiu dinheiro no projeto. Tal rendimento financeiro foi usado para a compra de equipamentos melhores para gravação de músicas, tais como, um computador e um sampler MPC. A banda então fez alguns shows e escreveram algumas de suas músicas/demos mais antigas, sendo elas: Rhinestone (demo de Forgotten); Reading My Eyes; Fuse; Stick N Move (demo de Runaway); Esaul (Demo de A Place For My Head); Pictureboard; Dialate; Deftest e Xero Reborn. Pictureboard levou anos pra ser liberada pois a banda não gostava muito da música e ela continha um loop de bateria da música Criminal Minded do grupo de Hip Hop “Boogie Down“. Existem versões dela com Mark e Chester nos vocais. A versão com Chester Bennington foi liberada oficialmente na edição de comemoração de 20 anos do Hybrid Theory, assim como Dialate, e a versão com vocais de Mark Wakefield vazou na internet alguns meses antes. 

Esaul também tem versões diferentes com ambos os vocalistas e Deftest e Xero Reborn são as únicas que continuam inéditas e nunca foram liberadas.

Infelizmente como XERO a banda não conseguiu firmar um contrato com nenhuma gravadora. Elas achavam que o grupo era mais do mesmo, e não havia um elemento interessante o suficiente pra eles vingarem comercialmente.

Não sei, eles são bons mas falta alguma coisa” disse Mike sobre a forma como as gravadoras viam a banda. Pouco depois Mark Wakefield deixaria a banda, devido a ter sérios problemas de ansiedade e pavor de público, fato que dificultava muito as performances dele no palco. Phoenix também deixaria o grupo pra se dedicar ao seu outro projeto, Tasty Snax, e Kyle Christner entrou no seu lugar. Phoenix voltaria pra banda no dia do lançamento do Hybrid Theory em 24 de Outubro de 2000.

Um tempo depois, a banda abriu algumas audições a procura de um novo vocalista e foi quando Chester fora indicado por um dos seus agentes que ficou sabendo que a banda estava procurando um novo vocalista. Eles enviaram uma música para o Chester que morava no Arizona na época, e no final de semana do seu aniversário de 23 anos, ele gravou as músicas com seus vocais e enviou de volta para Los Angeles. A banda e seu agente Jeff Blue ficaram impressionados com o talento de Chester, e então, ele rapidamente se mudou para Los Angeles. Chegando lá fez algumas audições e em um delas um outro cara que estava fazendo o teste pegou o microfone quando ouviu Chester cantar e disse: “Esse cara é muito melhor do que eu, se vocês não o escolherem vocês são uns idiotas, eu vou embora”. Chester acabou entrando oficialmente na banda em 1999. Mudaram o nome para Hybrid Theory e gravaram seu primeiro EP intitulado “Hybrid Theory EP” que continha 6 faixas. Kyle Christner, que havia substituído Phoenix há pouco tempo, deixou o grupo depois do lançamento do EP. A banda passou 9 meses se apresentando para gravadoras e fazendo shows promocionais em busca de um contrato até que Jeff Blue conseguiu um emprego dentro da Warner Bros como chefe do departamento de A&R (Artistas e Repertório). Então, Jeff insistiu que a Hybrid Theory fosse a primeira banda a ser contratada por ele e, em abril de 2000, a banda fechou contrato com a gravadora. Antes disso, a Warner já havia os negado três vezes. 

O Linkin Park começou o processo de gravação e criação do seu primeiro disco, Hybrid Theory, entre 1999/2000. Mesmo com um contrato definido junto a uma gravadora, a banda ainda enfrentou vários problemas como a falta de uma baixista fixo. Brad Delson tocou a maioria das linhas de baixo do disco e outros baixistas como Ian Hornbeck e Scott Koziol tabém gravaram algumas das músicas. Scott, inclusive, fez alguns shows com a banda antes do retorno de Phoenix. A Warner tentava de todas as formas fazer alterações na banda. Mike disse em uma entrevista que ele tinha certeza que haviam pessoas dentro da gravadora que não gostavam deles e faziam de tudo para a banda não dar certo. A primeira coisa que eles fizeram quando assinaram o contrato foi reunir todos do prédio da gravadora para se apresentarem e mostrarem o quão gratos eles estavam pela oportunidade e o quanto eles estavam dispostos a levar aquilo a sério. 

A gravadora tentou tirar Mike Shinoda da banda. Sim, isso mesmo. A mente brilhante por trás de todos os sucessos da carreira deles quase foi tirada da formação. Primeiro eles quiseram convencer a todos que Chester era a grande estrela e que Mike não precisava cantar ou fazer rap, bastava tocar teclado e ficar de fundo como backing vocal. Eles fizeram Jeff Blue convencer Mike a alterar a letra de In The End contra a sua vontade. Don Gilmore, produtor do disco, também tentou persuadir Chester a tomar controle do projeto a mando da gravadora. “Eu não sei o que vocês estão pensando, mas foda-se, eu não vou fazer isso, essa banda é de Mike eu não sou dono de nada, vocês estão loucos” disse Chester ao contar sobre os absurdos que a gravadora queria fazer. Inúmeras músicas ao longo da carreira da banda representam esse conflito interno. One Step Closer, o primeiro single do Hybrid Theory, é justamente um grito contra a pressão que todos ali sofriam e a partir daí surgiu o verso “shut up when i’m talking to you” da música. Durante a gravação, Chester quase destruiu a cabine vocal enquanto cantava por conta da frustração que foi gravar o disco com todos esses problemas. O Linkin Park lutou toda a sua carreira contra esse tipo de influência e domínio que a Warner queria ter sobre eles. 

Outro disco que também passou por um processo similar foi o A Thousand Suns de 2010. Em uma música do Fort Minor chamada “Get Me Gone“, Mike rima sobre como a gravadora queria tirar ele da banda a todo custo antes mesmo da gravação do disco. Ele conta que até mesmo Joe Hahn sofreu com isso. Mike diz: “Surgiu uma pessoa da produção, querendo que fossemos uma espécie de banda caricata com personagens e Joe deveria usar um jaleco e um chapéu de cowboy enquanto tocava e ser meio que “O Médico”, um personagem do grupo”.

Apesar de todos os problemas e conflitos, a banda resistiu e foi fiel às suas ideias e propósitos desde o início. Isso uniu o grupo como um todo e tornou eles mais fortes. O resultado foi um disco impecável, com inúmeros hits e que entrou pra história do mundo da música. As experiências que culminaram na criação do Hybrid Theory vem, em sua grande maioria, da intimidade e história de cada um dos membros do Linkin Park, especialmente Mike e Chester. Ambos sempre conversavam sobre coisas da vida enquanto estavam compondo, tais como, a diferença de criação e suas histórias pessoais. Isso foi a receita perfeita para a criação de músicas intimistas que falam sobre coisas que pessoas como nós lidam todos os dias e que nem sempre são retratadas ou expostas. Hoje, 20 anos depois, o Hybrid Theory se mantém no pantheon da música como um disco que moldou toda uma geração, que serviu de voz para muitas pessoas ao redor do mundo e que trouxe o melhor de todos os gêneros da música em uma mistura única e incrível. A extensão do legado desse álbum vai muito além de números e conquistas. Ela está presente em cada pessoa que se sentiu representada ou tocada pelas músicas desse álbum. Músicas essas, que mudaram vidas ao redor do mundo e são motivo de alegria e nostalgia até hoje.

Em comemoração aos 20 anos do disco, a banda lançou uma coletânea de músicas, shows e documentários exclusivos. Um conjunto de memórias feito com todo carinho do mundo especialmente para todos os fãs. A edição especial tem 80 faixas, incluindo: o Hybrid Theory original; sua versão remixada, o Reanimation; o primeiro EP junto a Chester Bennington; o HT EP e várias músicas que antes só haviam sido liberadas através do seu fanclub oficial, o LPUnderground, assim como algumas tracks inéditas nunca antes liberadas, com distaque para Pictureboard, Dialate e Could Have Been. 

Ao meu ver, o Linkin Park como um todo, já passou da condição de banda. Para muita gente, incluindo a mim, eles são um estilo de vida, a força pra muitas vezes fazer a gente passar por momentos difíceis. Eles ajudaram a moldar o caráter e a vida de muitas pessoas, especialmente a minha, construindo amizades e ligando pessoas de diferentes lugares, tudo isso pelo amor ao que a música deles representa para cada um de nós. Uma vez eu escutei que não existe “não gostar de Linkin Park” ou você não conhece ou você ainda não estava preparado pra ouvir. Hoje, 20 anos depois, eu  acho que podemos dizer que essa é a maior verdade de todas. Se o maior objetivo do Linkin Park era unir gêneros através de um único som, eles conseguiram isso com maestria. Do rockeiro ao metaleiro, do cara que gosta de rap ao amante de música eletrônica, aonde quer que você vá, você sempre irá encontrar um fã hardcore de Linkin Park.

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